Depois de 44 anos de ligação à JCB, a Motivo vai deixar de representar a marca britânica em Portugal. O anúncio, feito numa conferência de imprensa realizada a 2 de julho nas instalações da empresa, marca o fim de uma das mais duradouras parcerias do setor dos equipamentos para construção e abre caminho a uma profunda redefinição da estratégia da empresa portuguesa.
Aos jornalistas, Maria Luís Gameiro, CEO da Motivo, afirmou que decidiram "não renovar os contratos com a JCB" por ambas empresas apresentarem atualmente "visões divergentes" sobre a evolução do negócio e sobre o papel que um distribuidor independente deve assumir num mercado em rápida transformação. A responsável garante que o futuro passará por um modelo mais flexível, menos dependente de um único fabricante e fortemente apoiado na digitalização e na inteligência artificial.
"A JCB nasceu e cresceu connosco no mercado português, mas a Motivo também cresceu com esta marca, não podemos deixar de o dizer", frisou Maria Luís Gameiro, reconhecendo a importância de uma parceria iniciada em 1982 e que acompanhou a evolução da construção portuguesa ao longo de mais de quatro décadas. "Agora podemos brindar ao fim deste ciclo, que foi bom enquanto durou, e ao começo de um novo".
Maria Luís Gameiro, CEO da Motivo, e José Gameiro, fundador e administrador da empresa portuguesa.
O anúncio do fim da representação encerra um capítulo importante na história da Motivo. No entanto, a administração fez questão de dedicar grande parte da apresentação ao futuro.
José Gameiro, fundador e administrador da empresa, explicou que pretende continuar a atuar no segmento das máquinas, agora com maior liberdade operacional. "Queremos trazer para o mercado português as máquinas de que ele precisa”, nomeadamente, escavadoras com motores de seis cilindros, "de qualidade premium". Na mira do empresário estão também sistemas hidráulicos e eletrónicos. Tudo isto, "por um preço competitivo", garante.
A empresa pretende igualmente explorar segmentos onde identifica potencial de crescimento, como a agricultura e equipamentos configurados para utilizações específicas.
Uma das mensagens mais claras deixadas pela administração prende-se com o modelo de negócio que pretende implementar.
Em vez de concentrar a atividade numa única marca, a Motivo pretende construir um portefólio mais diversificado, capaz de responder com maior rapidez às diferentes necessidades dos clientes e de acompanhar a evolução tecnológica do setor.
Segundo os responsáveis, essa estratégia permitirá uma maior capacidade de adaptação às especificidades do mercado nacional, "um mercado maduro, que exige tecnologia", reduzindo simultaneamente a dependência das decisões tomadas pelos fabricantes.
Maria Luís Gameiro recordou que, ao longo dos anos, a empresa foi várias vezes abordada por outros construtores de equipamentos, mas optou sempre por respeitar o compromisso assumido com a JCB.
Sem revelar qual será o próximo parceiro estratégico, José Gameiro confirmou apenas que a empresa já dispõe de uma proposta de outro fabricante, deixando antever novidades para os próximos meses.
Durante a conferência de imprensa, a Motivo revelou que pretende aproveitar esta mudança para transformar profundamente o seu funcionamento.
Uma das novidades avançadas é a implementação de ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) para aumentar a eficiência interna e melhorar a qualidade do serviço prestado.
Por exemplo, na SpeedRent, empresa de aluguer do grupo, a IA irá permitir responder "em segundos" aos pedidos dos clientes, recorrendo a sistemas capazes de identificar automaticamente a localização e disponibilidade das máquinas, os acessórios compatíveis e os custos logísticos associados ao transporte, explicou José Gameiro.
Apesar do fim da parceria, a Motivo garantiu que os atuais clientes da JCB continuarão a ser acompanhados durante o período de transição.
Na sequência do acordo celebrado entre as duas empresas, a Motivo continuará responsável pelas garantias, assistência técnica, manutenção e fornecimento de peças até 31 de outubro. A partir dessa data, essas responsabilidades passarão para a futura estrutura de representação da marca em Portugal.
José Gameiro sublinhou que esta solução foi definida tendo em conta, acima de tudo, os clientes. "Foi a confiança dos clientes que nos permitiu sermos o que somos hoje", por isso, "faremos um esforço adicional para que consigam ter as máquinas em bom funcionamento, de forma a poderem concluir as suas obras dentro dos prazos estabelecidos", assegurou o responsável.
O fim da relação comercial entre a Motivo e a JCB representa uma das mais relevantes alterações recentes na distribuição de equipamentos de construção em Portugal. O futuro da representação da marca britânica permanece por anunciar oficialmente, enquanto a empresa portuguesa remete para breve novidades na sua carteira.
Independentemente da solução encontrada, a decisão agora conhecida evidencia uma tendência que começa a ganhar expressão no setor europeu: os distribuidores procuram afirmar-se cada vez mais pelo valor acrescentado dos serviços que oferecem — assistência técnica, gestão de frotas, soluções digitais e consultoria — e menos pela exclusividade de uma única marca.
É precisamente nesse modelo que a Motivo pretende posicionar-se. Depois de 44 anos associada à JCB, a empresa inicia agora uma nova etapa, apostando na diversificação da oferta, na transformação digital e numa maior autonomia estratégica para responder às exigências de um mercado em rápida evolução.


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