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Informação para a Indústria de Construção Civil, Obras Públicas e setor mineiro

Do subsolo à obra: Portugal prepara novo ciclo mineiro

Marta Clemente12/10/2026

Mais de quatro décadas depois da última mina aberta em Portugal, o país volta a olhar para o seu subsolo com ambição. A procura europeia por lítio, cobre, tungsténio, estanho e terras raras está a acelerar a prospeção e a avaliação de recursos, enquanto novos projetos começam a aproximar-se da fase de engenharia e construção. Para empresas de engenharia, empreiteiros e fornecedores de equipamentos, a evolução pode significar uma nova frente de atividade, desde infraestruturas rodoviárias e redes de energia até terraplenagens, fundações, instalações industriais e sistemas de tratamento de minério.

Caveira. Fotografia: LNEG
Caveira. Fotografia: LNEG.

Portugal tem uma longa história mineira, mas pode estar a aproximar-se de uma nova fase. A procura europeia por matérias-primas críticas, impulsionada pela transição energética, pela eletrificação e pela digitalização, voltou a colocar o subsolo nacional no radar.

Para a Associação Portuguesa de Geólogos (APG), é “razoável considerar que Portugal deveria estar perante um novo ciclo de desenvolvimento da atividade mineira”, apontando a procura de matérias-primas críticas e o desenvolvimento de projetos estratégicos para a autonomia europeia como motores desta mudança.

A APG identifica, porém, desafios que vão da competitividade económica e do licenciamento à proteção ambiental, aceitação social, desenvolvimento regional, conhecimento geológico, inovação e qualificação de recursos humanos. E há um dado que ajuda a perceber a dimensão do desafio: “não abre uma nova mina em Portugal há 46 anos”, diz a associação.

Neves-Corvo, Aljustrel e Panasqueira continuam a ser ativos importantes e têm projetos de expansão aprovados. Já os novos projetos de lítio em Boticas e Montalegre e o projeto polimetálico da Lagoa Salgada, em Grândola, têm enfrentado contestação social, autárquica e ambiental.

Para a APG, a estabilidade é uma condição essencial para uma atividade que exige investimentos e horizontes temporais longos. A associação considera que “para haver investimento tem de haver garantia de estabilidade e de uma política de longo prazo, que não é compatível com legislaturas de quatro anos”. A APG avança ainda com a ideia de que “Portugal está a deixar passar uma janela de oportunidade histórica”, atribuindo igualmente esta perspetiva a muitos especialistas, investidores e analistas, numa altura em que a União Europeia procura reduzir a dependência externa de matérias-primas críticas.

A APG justifica, por outro lado, que desenvolvimento mineiro e proteção ambiental podem ser compatibilizados. Para isso, defende projetos tecnicamente robustos, elevados padrões ambientais e de segurança e uma relação mais próxima com as comunidades onde as explorações se inserem.

Conhecimento do subsolo como a primeira infraestrutura

Fotografia: APG
Fotografia: APG.

Antes de avançar para a exploração de uma mina, é necessário conhecer com rigor os recursos existentes no subsolo e avaliar o seu potencial. É precisamente nesta fase de conhecimento e caracterização dos recursos minerais que a APG e o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) identificam uma parte importante do trabalho que Portugal ainda tem pela frente.

A APG entende que o país dispõe de uma base sólida de conhecimento geológico, mas insuficiente para sustentar, por si só, um novo ciclo mineiro de grande escala. Há áreas pouco estudadas em detalhe e cartografia que precisa de ser concluída ou atualizada. A associação defende novas campanhas de prospeção geológica, levantamentos geofísicos e geoquímicos e sondagens, não apenas para identificar recursos, mas também para reduzir a incerteza associada aos investimentos futuros.

O potencial português não se resume ao lítio. Entre os recursos com maior interesse estratégico estão também o tungsténio, as terras raras, o cobre e o estanho.

Apesar disso, o lítio assume uma posição de destaque. Os principais recursos identificados encontram-se associados a pegmatitos graníticos, sobretudo no Norte e Centro do país, e o conhecimento acumulado pelo LNEG contribuiu para o relatório ‘Lítio em Portugal’, elaborado em 2016. Em março de 2025, quatro projetos portugueses foram classificados pela Comissão Europeia como estratégicos ao abrigo do Critical Raw Materials Act, três dos quais relacionados com o lítio. O Programa Nacional de Prospecção 2025-2030 identifica igualmente este metal como uma das prioridades nacionais.

Mas há outros recursos com potencial. Portugal tem mais de um século de tradição na exploração de tungsténio, com referências como Panasqueira, Borralha, Vale das Gatas, Regoufe e Ribeira. O metal é utilizado em ferramentas de corte, indústria pesada, eletrónica, aplicações aeroespaciais e defesa. O LNEG chama ainda a atenção para as antigas escombreiras e rejeitados mineiros, que podem conter concentrações de tungsténio e outros elementos suscetíveis de voltar a ter interesse económico.

Nas terras raras, Portalegre e Monfortinho surgem entre as áreas de interesse. O cobre mantém importância estratégica para redes elétricas, energias renováveis, veículos elétricos, armazenamento e tecnologias digitais. Na Faixa Piritosa Ibérica, onde se encontram Neves-Corvo e Aljustrel, permanece potencial para novas descobertas, enquanto os resíduos de antigas explorações constituem também uma possível fonte secundária.

O estanho completa este conjunto de recursos estratégicos. Existem numerosas ocorrências conhecidas no Norte e Centro, incluindo Argozelo, Ribeira, Vale das Gatas, Bejanca-Bodiosa e Panasqueira. Também aqui os depósitos associados a antigas explorações podem merecer nova análise à luz das tecnologias atuais.

No entanto, parte do potencial ainda não está suficientemente caracterizada: “Continua a existir um vasto potencial mineral em Portugal por conhecer e quantificar”, explica Daniel de Oliveira, da Unidade de Recursos Minerais e Geofísica do LNEG. O investigador aponta, em particular, para lacunas de conhecimento em profundidade e para substâncias que apenas recentemente ganharam importância económica e estratégica. Alguns depósitos economicamente interessantes podem encontrar-se a centenas de metros de profundidade, exigindo geofísica aérea e terrestre, modelação tridimensional do subsolo e sondagens profundas. “A integração de informação geológica, geofísica, geoquímica, mineralógica e de deteção remota permite hoje construir modelos preditivos muito mais eficazes do que aqueles que estavam disponíveis em campanhas realizadas há algumas décadas”, refere Daniel de Oliveira.

Há ainda uma frente que aproxima mineração e recuperação ambiental: a caracterização sistemática de antigas minas, escombreiras e depósitos de rejeitados. Portugal tem centenas destes locais e alguns podem conter metais críticos em concentrações que não eram valorizadas quando as explorações estavam ativas. A recuperação desses materiais poderá contribuir simultaneamente para a reabilitação de áreas mineiras e para o abastecimento de matérias-primas.

Do recurso geológico ao projeto de engenharia

Fotografia: APG
Fotografia: APG.

Entre a identificação de um depósito e a abertura de uma mina existe uma longa fase de avaliação, tal como esclarece Daniel de Oliveira: “A simples existência de uma ocorrência mineral, mesmo contendo matérias-primas críticas, não garante que esta possa ser explorada com sucesso.”

É necessário conhecer a dimensão, o teor, a continuidade, a geometria, a profundidade e a variabilidade da mineralização. Depois entram os fatores mineralógicos e metalúrgicos: importa saber como os minerais úteis estão distribuídos na rocha e se podem ser concentrados e recuperados industrialmente.

A engenharia surge logo a seguir. As condições geotécnicas e hidrogeológicas, o método de exploração, a disponibilidade de água e energia e as infraestruturas de transporte influenciam diretamente o desenvolvimento e os custos de operação. A estes fatores juntam-se preços das matérias-primas, investimento inicial, custos operacionais e vida útil da exploração, bem como condicionantes ambientais, territoriais e sociais.

A Associação Portuguesa dos Industriais de Mármores, Granitos e Ramos Afins (Assimagra) entende que o setor dos recursos minerais atravessa “um momento de charneira”: um contexto internacional mais exigente, mas também de reforço da sua relevância estratégica. Um estudo da Nova SBE promovido pela associação e apresentado no StonebyPortugal Summit 2026 estima em 3,7 mil milhões de euros o valor gerado pela fileira e em 73.800 os empregos sustentados em Portugal. Por cada euro de Valor Acrescentado Bruto (VAB) gerado diretamente pela indústria extrativa, o estudo calcula um efeito multiplicador de 3,08 euros na economia.

Para as empresas de engenharia e construção, um aumento da atividade extrativa e transformadora pode traduzir-se em procura por engenharia geológica, mineira, ambiental e de projeto, equipamentos de extração, corte, serragem e transformação, infraestruturas logísticas, acessos rodoviários e capacidade portuária.

A sustentabilidade acrescenta outras necessidades: monitorização, certificação, engenharia ambiental e soluções para melhorar a eficiência no consumo de energia e água. Na pedra natural, a utilização crescente de pedra portuguesa em projetos internacionais de arquitetura gera também necessidades de especificação técnica e engenharia de projeto.

Há ainda um impacto mais direto sobre a construção e as obras públicas, através da expansão ou modernização de unidades de transformação e da requalificação de infraestruturas nas regiões produtoras. A Assimagra considera que esse efeito pode beneficiar empresas de engenharia, empreiteiros, fornecedores de equipamentos e emprego nos territórios do interior.

Licenciamento, acessos e energia pesam na equação

A Assimagra indica a morosidade e complexidade dos processos de licenciamento ambiental e de exploração como um dos principais entraves ao investimento. As infraestruturas constituem outro problema. A associação dá como exemplo a Variante a Boticas e a ligação à A24, enquanto os custos energéticos pressionam empresas que utilizam maquinaria pesada. A falta de mão de obra qualificada abrange tanto perfis técnicos e operacionais como engenharia especializada.

A associação tem procurado responder a este último problema através de bolsas e parcerias com instituições de ensino superior.

Para a APG, o enquadramento dos futuros projetos vai ter de ser igualmente exigente. Entre as condições referidas estão o conhecimento geológico detalhado, os estudos de viabilidade económica, a estabilidade do mercado, a proteção ambiental e dos recursos hídricos, medidas de minimização e compensação de impactes, planos de encerramento sustentáveis, segurança e envolvimento das comunidades locais.

A associação advoga um quadro regulatório com processos de licenciamento transparentes, rigorosos e céleres. E atribui à Geologia uma função que ultrapassa a descoberta de jazigos: “O papel da Geologia é muito mais abrangente do que a visão redutora, que muitas vezes dela se tem, de ser apenas uma ferramenta de descoberta de recursos minerais”, defende.

“Programa Nacional de Prospecção não serve para abrir minas”

O Programa Nacional de Prospecção 2025-2030 tem aqui um papel importante. Este “não foi concebido para promover a abertura de minas”, sublinha Daniel de Oliveira. O seu objetivo é reforçar o conhecimento geológico do território através da aquisição, integração e disponibilização de informação geocientífica.

O programa surge no âmbito do artigo 19.º do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas e o LNEG enquadra este esforço como um investimento estruturante em soberania geológica.

A redução da incerteza é uma das funções centrais do programa. Novos dados geológicos, geofísicos e geoquímicos, informação de deteção remota, reprocessamento de dados históricos e modelação avançada podem melhorar a avaliação do potencial mineral e reduzir o risco nas fases iniciais dos projetos.

Para a construção e engenharia, há ainda várias etapas a cumprir antes de chegar à obra. Mas é também aqui que começa a ser determinada a possibilidade de um recurso passar, mais tarde, para um projeto com obras, equipamentos e infraestruturas.

Savannah: um projeto já a entrar na engenharia de execução

Fotografia: Savannah
Fotografia: Savannah.

O Projeto Lítio do Barroso é um dos que se encontra mais diretamente ligado à próxima fase de engenharia e construção. Segundo a Savannah Resources, este encontra-se em engenharia de detalhe e Front-End Engineering Design (FEED), enquanto decorre o cumprimento das exigências técnicas associadas à Declaração de Impacte Ambiental favorável condicionada emitida pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

O Estudo de Viabilidade Definitivo (DFS), concluído em julho de 2026, aponta para um recurso mineral estimado de acordo com o código JORC (Joint Ore Reserves Committee) de 39,2 milhões de toneladas e uma Reserva Provável inicial de 20 milhões de toneladas, com um teor médio de 0,99% de Li2O (óxido de lítio). A empresa estima uma vida útil inicial de 14 anos e uma produção de cerca de 2,56 milhões de toneladas de concentrado de espodumena de alta pureza, que, segundo os seus cálculos, pode fornecer matéria-prima para mais de sete milhões de baterias de veículos elétricos.

O calendário apresentado pela Savannah coloca já a construção no horizonte de 2027. No quarto trimestre de 2026 está prevista a submissão do Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE) à APA, seguindo-se a decisão de conformidade e a emissão do Título Único Ambiental. Em paralelo, avançam os procedimentos relativos à variante rodoviária de Boticas e à ligação à rede elétrica de 60 kV, em articulação com a E-Redes e a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).

A empresa prevê uma Decisão Final de Investimento no início de 2027. O financiamento combina capitais próprios, financiamento bancário e um incentivo estatal não reembolsável de até 110 milhões de euros contratualizado com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), dos quais 82,25 milhões estão alocados diretamente ao Capex inicial de construção. “O investimento inicial bruto previsto no DFS é de 417,5 milhões de dólares, ou 323 milhões de dólares líquidos após a dedução do incentivo contratualizado com o Estado”, é esclarecido.

A Savannah prevê depois iniciar a montagem do estaleiro e as empreitadas de terraplenagem e construção civil durante 2027, com produção e fornecimento comercial previstos para 2028.

Fotografia: Savannah
Fotografia: Savannah.

O programa de engenharia é extenso. Inclui a unidade de processamento, com trituração, separação densimétrica em meio denso, flotação, espessamento, filtragem e instrumentação digital; uma nova variante rodoviária de 16,5 a 17 quilómetros de ligação à A24; movimentações de terras e rotundas; estabilização geotécnica; edifícios industriais e de apoio; oficinas e redes de águas pluviais. Está também prevista a deposição de rejeitados a seco, através de desidratação mecânica e compactação sobre uma plataforma impermeabilizada, em vez de barragens convencionais de lamas.

Para as empresas portuguesas, a lista de oportunidades é igualmente concreta. A Savannah afirma dar preferência ao tecido empresarial português e transmontano e identifica necessidades em terraplenagens, pavimentações, cofragens, fundações especiais, engenharia eletromecânica, linhas elétricas, tubagem industrial e automação.

“Haverá uma forte procura por empreiteiros de terraplenagens, pavimentações viárias, cofragens e fundações especiais”, afirma a empresa. A lista prolonga-se pelo fornecimento de betão pronto, agregados, estruturas metálicas e aluguer de frotas pesadas, bem como por ensaios laboratoriais, fiscalização geotécnica e monitorização ambiental.

Um estudo macroeconómico independente realizado pelo Núcleo de Investigação em Políticas Económicas e Empresariais (NIPE), uma unidade de investigação da Universidade do Minho, citado pela Savannah, estima um acréscimo de 420 milhões de euros no Valor Bruto da Produção nacional durante a construção. A empresa aponta ainda para cerca de 1500 postos de trabalho diretos e indiretos.

O Projeto Lítio do Barroso foi classificado como Projeto Estratégico Europeu em março de 2025 ao abrigo do Critical Raw Materials Act.

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